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 Samara Alice.

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Rosa Ciranda
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MensagemAssunto: Samara Alice.   Seg 14 Jan 2013, 20:19

Spoiler:
 

Classificação: +12.
Gêneros: Ação, Aventura, Amizade, Fantasia, Original, Hurt/Confort, Suspense.
Gêneros secundários: Romance, Terror, Humor.
Avisos: Heterossexualidade, Conflito Psicológico, Drogas lícitas. (Culpa da Lagarta)
Terminada?: Não.

Sinopse:
Samara tem uma professora que adora ler. Sabendo disso, recorre à ela para conseguir sugestões de livros. Esta lhe recomenda vários e dentre eles Alice no País das Maravilhas. Samara nunca foi muito atraída por aquela obra em particular, mas acaba aceitando essa sugestão. Entretando, ela jamais imaginou o que poderia ocorrer com a professora Rosa em consequência desse favor. Não seria esta a primeira experiência sobrenatural que acontece entre as duas, mas é, certamente, bem mais complicada...
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MensagemAssunto: Re: Samara Alice.   Ter 15 Jan 2013, 09:44

Sinopse me chamou a atenção. Já coloquei na lista ^^

_________________
--


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MensagemAssunto: Re: Samara Alice.   Ter 15 Jan 2013, 11:52

Gostei da sinopse! *-*
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MensagemAssunto: Re: Samara Alice.   Ter 15 Jan 2013, 14:12

Muito obrigada, onii-san e onee-san. ^^ Espero que gostem do prólogo.
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Prólogo.

Os contos de fada surgiram há muito tempo, quando moças ainda estavam sobre a tutela de uma sociedade machista. Eram contados como um meio de transmitir a lição de moral: "Viram? Não saiam de casa por que isso pode acontecer." ou coisa do gênero. Mais tarde, essas mesmas histórias foram adaptadas para serem contadas às crianças. Logo acabaram populares e incentivando a literatura infantil a desenvolver até finalmente passar aos cinemas, televisões, revistas. Foram apresentados como um mundo de felicidade e pureza, onde o bem sempre vencia o mal sem qualquer ferimento incurável. Uma face muito diferente da original. Totalmente diferente. Mesmo assim, os significados e propósitos reais ainda estão lá, entrenhados bem no fundo dos livros, mesmo daqueles que não são contos de fadas e mesmo assim são semelhantes na essência.

Contudo, nos últimos anos as histórias veem sido mais e mais visivelmente pervertidas. De filmes, desenhos e jogos "cor de rosa" passaram a serem de terror sem qualquer constrangimento, preenchendo espaços nas prateleiras e vendendo ao ponto de render milhões. Isso está os agitando. Os contos de fadas e demais histórias estão ficando muito agitados. Sua verdadeira natureza se apresenta cada vez, as pessoas até conseguem ir além! Eles estão ficando afobados, buscando sufocar a própria ansiedade, o suor frio, a tremedeira. Chegou no ponto em que quase já não podem se conter para explodirem e mostrarem tudo. Basta de fantasia, de sorrisos, de beijos apaixonados e de fugas bem sucedidas. Eles nunca foram nada disso e hoje, graças aos humanos, estão piores. Agora eles receberam acréscimos e por isso a sua natureza piorou.

Dizem que as histórias estão mortas quando os livros onde estão pousadas permanecem fechados, mas que vivem quando suas páginas são abertas. Esta é uma informação real que, inclusive, um humano já relatou.

E é por isso que chegou a hora de uma revolução. Nenhuma história mais aguenta. Está na hora de relaxar os nervos, quietar as veias pulsantes, cessar a atuação, satisfazer a vontade descontrolada de sua natureza. É por isso que hoje qualquer livro com a história nessas condições aniquilará seu desespero quando for aberta!
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MensagemAssunto: Re: Samara Alice.   Seg 21 Jan 2013, 13:52

Gomen pelo double post. gomen, gomen...
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[Atenção! Vídeo com spoilers do OVA de Black Rock Shooter!]

Capítulo 1 - A porta para o submundo.

Era uma manhã de quarta-feira, já na hora da saída dos alunos. Eu havia me despedido às pressas de algumas colegas de sala, arrumado o material com um pouco de antecedência e tomado o máximo de cuidado com minha pasta catálogo azul durante toda a manhã. No momento, encontrava-me no meio de uma multidão de alunos, cuja a maioria caminhava despreocupada num só fluxo, rumo ao portão do colégio enquanto tagarelavam entre si. Afobada, buscava cortá-la como podia até que saíssemos do corredor e chegássemos ao pátio central, no qual eu poderia seguir meu rumo sem ter que me espremer aqui e ali. Abraçando a pasta durante o percurso e posteriormente a vários pedidos de "licença" e "desculpa", o Sol queimou meu rosto e a luz, intensificada pelo conjunto de mesas e cadeiras brancas para refeição, cegou-me por um momento. Havíamos chego. Era hora de partir.

Desvencilhando-me da multidão após um pouco mais de esforço, atravessei o pátio correndo, desviando dos móveis de ferro pelo caminho e largando a mochila vermelha em uma mesa qualquer sem interromper o passo. Quando cheguei às escadarias que ficavam do outro lado já estava ofegante. Cabia-me um tanto da culpa, já que me desgastava facilmente devido a baixa oxigenação do cérebro, mas, de verdade, estava um calor horrível! Indiferente ao próprio estado físico, subi a escada de dois em dois degraus até a quadra. (Um suspiro de alívio saiu ao constatar que o portão branco ainda estava aberto.) Rasgando o ar, foi ao prédio que estava do lado oposto, o peito começando a doer. Chegando lá, subiu mais degraus ("Escadas, escadas, argh!") até chegar ao segundo andar, no qual diminui as passadas. Dando-me ao luxo de andar a pés arrastados, minha respiração era ruidosa e meus ombros iam para cima e para baixo, os músculos doendo um pouco. Mesmo assim, recusei-me a parar até que chegasse a única sala de aula do patamar. A porta era de vidro, então nada me impediu de olhar pelo canto a mesa do professor. Na boca rosada e fina desabrochou um sorriso de alívio e felicidade, as maçãs do rosto corando levemente depois.

Ela ainda estava lá. Concentrada em anotar sabe-se-lá-o-quê, como sempre. Que orgulho! Era tão esforçada!

Inspirei profundamente para me recompor. Em seguida entrei na sala dizendo com um sorriso tímido:

- Oi, professora Rosa! Está ocupada?

A mulher de corpo baixo e pouco envelhecido com relação aos seus 50 anos virou o rosto para me encarar. Os cabelos lisos e volumosos estavam presos em um rabo de cavalo baixo, o qual era mantido por uma presilha com uma grande rosa preta, destacada sobre os fios castanhos claros. Os pequenos e marrons olhos penetrantes me olharam por cima dos óculos de leitura. Não demorou muito para que ela sorrisse em resposta.

- Ah, olá, Samara. Não, eu não estou ocupada não, pode entrar. - e enquanto me aproximava da mesa, ela continuou, voltando-se ao trabalho novamente. - Só estou preenchendo algumas ocorrências aqui...

- Aposto que são da minha sala - comentei, rindo em seguida. Não falara por maldade, fora mais por brincadeira.

Ela riu brevemente.

- Não, porque da sua sala eu já fiz.

- A-Argh... Inclusive aquela lição de casa que esqueci hoje nos dois últimos meses?

- Sim, senhorita.

Fingindo um choramingo exagerado, larguei-me na carteira frente à mesa.

- Ah, deixe de drama, Samara! - falou com bom humor. - Uma liçãozinha não fará diferença!

- Exatamente; mais um motivo para a senhora não marcar!

- Nem pensar.

- Nháaa...!

- Certo - e largou a caneta e a pasta com gestos exagerados, contendo-se para não rir -, mas você não veio aqui só por isso, veio? Pude ouvi-la se aproximando... Não se cansaria tanto apenas para isso, cansaria? - e apoiou o queixo na mão, o cotovelo sobre a mesa e os olhos diminuídos pelo sorriso que lhe enrugava o rosto.

Para disfarçar a vergonha continuei sorrindo ao retorquir:

- Pela sua resposta? Nunca! Ah, na verdade eu queria te mostrar uma coisa. Espera aí...

Com estalos do elástico que mantinha-a lacrada, escorreguei os dedos para onde estava a folha que eu já havia separado.

- Aqui, vê, vê! - falei animadamente, deixando a pasta na mesa de trás e exibindo com ambas as mãos uma carta oficial aberta. - Eu ganhei um concurso de redação do estado!

Ela soltou uma longa exclamação de surpresa enquanto pegava o papel que eu acabara por oferecer com orgulho, os olhos pequenos dela agora levemente arregalados ao correrem ao longo da notificação. Após alguns momentos registrando o que lhe interessava de toda aquela formalidade, ela olhou para mim outra vez:

- Nossa, meus parabéns! - e devolveu a atenção para a carta com sorriso aberto.

Com o rosto rubro até o topo liberei uma risadinha sem jeito enquanto passava a mão na nuca, meus cabelos compridos, lisos e castanhos escuros roçando nas costas de minha mão magra.

- O-O-Obrigada. Aliás, obrigada por toda a ajuda que você me deu até hoje, hehehe...

- Ora, de nada. Posso ver o seu texto ou ficou com o governo?

- Ih, ficou com o governo... - Levantei-me e me agachei frente à mesa do professor, segurando no tampo e pondo o queixo sobre ele. Não me sentia confortável vendo a minha professora de Português de cima por muito tempo. - Rooosaa, falando nisso, a senhora pode me recomendar alguns livros? Mas de fantasia, sabe? Ouvi falar de um concurso que terá esse tema e queria exercitar a mente antes. Desse jeito eu não entro tão em pânico na hora. - e pus a ponta da língua para fora da boca numa brincadeirinha.

Rosa sugeriu todos os livros que conhecia, apesar de confessar nunca ter sido muito fã de livros fantasiosos. Foi uma lista consideravelmente extensa, mas eu tinha lido já todos exceto por um: Alice no País das Maravilhas. Com o intuito de me incentivar, percebi, a professora ressaltou as qualidades do livro, frisando especialmente o autor e em como tinha detalhes pouco sabidos. Meio a contragosto aceitei aquela proposta. Afinal, se ela estava falando... Combinamos que ela traia o volume que tinha em casa e que eu o devolveria dali uma semana e pouco depois o marido dela chegou. Ele era um homem de cabelos bem brancos e curtos, alto e aposentado que simplesmente aparecia no final do expediente da esposa para ficar um pouco com ela. Super fofinho! Como sempre, assim que ele veio, arranjei uma desculpa, despedi-me e saí logo dali para deixá-los sós em um dos raros momentos vagos da professora.

Na manhã seguinte lá estava Rosa, pegando o livro da bolsa logo após dispensar os alunos do 6º ano para o intervalo. Ela sorriu de canto enquanto admirava a capa bem preservada, lembrando bem da minha cara de indecisão do dia anterior e pensando em como eu conseguia exagerar nas minhas expressões quando queria. Fora assim nos últimos três anos e ela não se arrependia de ter visto tanto os momentos de encenação quanto os de "timidez sem motivo", como ela tinha o hábito de dizer. Lançou uma olhadela para a porta clara. Algum aluno havia-a fechado ao sair. Esperava que eu entrasse logo para pegar o livro. Decidiu que preencheria alguns papéis enquanto aguardava, mas reparou numa página com ponta dobrada. Sendo extremamente organizada e preocupada com qualquer coisa sobre sua tutela, ela abriu o livro para que pudesse desdobrar aquela folha.

Foi o seu erro que desencadeou tudo.

Um brilho muito forte e claro foi emitido com violência do livro que estremecia forte em suas mãos momentos antes ser largado num reflexo defensivo. Ela não sabia onde ele havia caído, se na mesa ou no chão mais adiante, pois a luz continuava cobrindo-a por inteiro e além, cegando-a, mesmo com os pálpebras fechadas ela sentia os olhos atrás das lentes de contato arderem e lacrimejarem, os braços inutilmente frente ao rosto franzido. Ela não era de gritar. Mesmo que quisesse, não poderia. A voz parecia ter morrido para sempre. Sua pele estava queimando indiferente ao agressivo vendaval que esvoaçava e acabava por soltá-los de uma presilha preta que estava alta em sua cabeça. Sentia que suas pernas estavam quase cedendo para deixá-la cair para trás. Em um momento raro ela se perguntou se aquilo nunca acabaria. Então sentiu como se alguém puxasse-a pela cabeça para frente, com tal força que tirou-a do chão, ergueu-a no ar. Nessa hora sua boca se escancarou, porém não emitiu som algum. Sentiu que estava caindo. Percebeu que estava caindo muito além do que permitia o chão. Alguma coisa estava errada, mas ela ainda não conseguia ver, a luz mantinha a mesma intensidade cheia de crueldade. Sentiu o ar estar no fim em seus pulmões, mas ainda não ouviu som algum.

O livro se fechou sozinho em cima da mesa como se um vento o obrigasse. Mas não havia vento. Nem ninguém.
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Rosa Ciranda
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MensagemAssunto: Re: Samara Alice.   Qua 13 Fev 2013, 16:16

Capítulo 2 - De olhos vermelhos e com os dentes também...

Samara estava decepcionada.

A última aula antes do intervalo fora de Matemática e toda a turma se atrasou para sair devido a um castigo da professora, por não terem feito o dever de casa. Eles tiveram que completar uma lista de exercícios inteira e não podiam sair até que estivesse pronta. Samara a fez o mais depressa que pode, mesclando a necessidade com a ansiedade; mesmo precisando de nota, ela não sabia nada dali e ainda tinha um compromisso. Que ficasse daquele jeito mesmo!

Ela partiu correndo, orando para que a professora já não tivesse ido para a sala dos professores como costumava fazer, para que pudesse tanto pegar o livro quanto conversar com ela. A professora Rosa era muito ocupada e não costumava se dar ao luxo de se demorar para sair de alguma sala de aula. Consciente de que, mais tarde naquele mesmo dia a professora de Matemática iriam dar-lhe umas bastonadas por tudo o que fizera na tarefa de classe, ela ignorou aquilo nos momentos em que cortava o vento e passava o melhor que podia entre as pessoas. Tinha que chegar logo e depressa! Que ela conseguisse pegar a professora no caminho pelo menos! Por favor!

Quando a estudante viu a porta fechada, seu sangue gelou e sentiu o desânimo. Será que já a haviam trancado? Arriscou girar a maçaneta. A porta se abriu. Isso! Ainda tinha chance. Torcendo para que nenhum monitor a notasse, entrou na sala pela menor fresta que poderia abrir, fechando a entrada com cuidado ao girar nos calcanhares. Virou e não encontrou ninguém. Seus ombros caíram e ela sentiu o coração arrebentar, porém não completamente. Os materiais todos ainda estavam lá. Provavelmente Rosa havia saído às pressas já que uma pasta estava aberta e os livros estavam fora da maleta preta, que aliás jazia aberta sobre a mesa, encostada na parede.



Samara chegou mais perto a passos lerdos e viu o livro fechado sobre a mesa, logo em frente da pasta de ocorrências escancarada. Notou a capa velha, porém ao passar a mão sobre ela notou que estava perfeitamente lisa. De fato as cores estavam gastas e os cabelos loiros da Alice na capa, inclusive, eram beges agora. Sorriu de canto. Será que podia esperar ali? Talvez pudessem trocar uma palavra ou duas? "Mas..." ela pensou em seguida, com apreensão "e se ela estiver muito ocupada?" Sentiu dúvida. Não sabia mais o que faria. Simplesmente por fazer, resolveu folhear algumas páginas do livro enquanto pensava, carinhosamente testemunhando todo o cuidado que a professora de certo havia tido com ele ao longos dos anos.

Tudo aconteceu muito rápido. Uma luz gritante a engoliu e ele ouvia o livro tremer violentamente sobre a mesa assim que abriu o Alice. Ela tentou proteger seus olhos inutilmente; eles ainda doíam e de quebra a pele fina estava queimando. Ela tentou se virar desesperadamente. E de novo, e de novo e mais outra vez. Mas ainda doía tudo, machucava tudo, ardia tudo. Os olhos choravam na tentativa natural e indiferente de seu corpo de preservá-los, sua pele parecia chiar diante de todo aquele calor, os músculos estava alterados por mais que ela andasse para trás buscando se afastar. O vendaval fortíssimo já a fizera cair havia tempo, mas nem mesmo cobrindo o rosto no chão sua situação melhorava. E onde estavam as carteiras, não sentia nada. Dos seus gritos de aflição e dor, não ouvia nada. Sua garganta estava doendo, sentia o ar passar por ela e acabar nos pulmões, mas ainda assim não ouvia nada.

Então sentiu como se garras a prendessem pelo colarinho do uniforme, o que serviu apenas para assustá-la mais ainda. Alguma coisa estava lá. Alguma coisa com garras enormes, podia sentir! Samara também sentiu quando foi puxada alto com brutalidade que lhe estalou um osso do pescoço e notou ser solta para cair. Iria bater forte na mesa e perder a consciência. Mas onde estava a mesa? Ela continuava caindo, caindo e caindo, a luz ainda a cegá-la e a machucá-la sem piedade, as mãos sobre o rosto, mesmo os ossos começando a doer. Ela se encolheu e cobriu a cabeça com as mãos. Ela iria morrer? E daquele jeito? - De um jeito que nem mesmo ela sabia como?!

Por debaixo das pálpebras ela percebeu a luz se extinguir de repente, o vento zunindo em seus ouvidos e escutando o próprio grito do nada. Calou-se. Ainda estava caindo, sentia o corpo partindo o ar. Apesar de um tanto atordoada, não sentia mais nenhuma dor, exceto pela secura dos olhos. Nem mesmo a pele doía mais. Porém, algo estava errado com ela. Devagarinho Samara foi tirando as mãos do rosto e abrindo os olhos castanhos e tomou um susto. Estava em algo que parecia um largo poço que não parecia ter fim. Em seguida reparou que as paredes daquele poço eram formadas por estantes de madeira polida.

Ela se afligiu. As prateleiras tinham muitos livros, de todos os tamanhos, com todo o tipo de capa, no entanto eram cabeças de pessoas e animais que serviam para mantê-los em pé.

Foi como se recebesse um soco forte no estômago, uma ância de vômito apalpou-lhe a língua e ela se viu obrigada a encolher mais do estava, cobrindo a boca. Quem - ou, na pior das hipóteses, o quê - seria capaz de uma coisa daquelas?! Nisso ela compreendeu porque sentia-se estranha.

Reparou em suas roupas. Estavam diferentes. Usava um vestido de empregada, preto com babados brancos e um avental também branco. Calçava sapatos pretos lisos e brilhantes com meias brancas enfeitadas com rendas. Sob o vestido, à mostra nos ombros e no busto, estava uma blusa vermelha escarlate de mangas curtas bufantes. Na cabeça mais babados brancos, desta vez servindo como tiara de fita. Percebeu que os cabelos estavam presos em um rabo de cavalo alto.

Então Samara finalmente registrou seus pulsos acorrentados. Seus olhos se arregalaram. Inutilmente tentou arrebentá-las. Depois procurou nos bolsos do avental qualquer sinal da existência de uma chave. Nada, nada, nada! Por precaução olhou para os pés. Ao menos lhe era permitida a "façanha" de andar livremente. Foi quando reparou nas luzes de lanterna que apareciam lá embaixo como estrelas caídas.

Parecia que o poço tinha um término, afinal. Por um momento isto a aliviou, mas então lembrou que a queda a mataria e entrou em pânico. Como se pudesse se proteger, fechou os olhos com o coração tremendo, as mãos novamente sobre o rosto. "Por quê?" questionava, "Por QUÊ?!" Desejava gritar, porém não conseguia sentindo a garganta entalada. Arriscou uma espiada. Estava quase lá. Em breve se desfaria em um horrível baque úmido. Já podia ver seu corpo deformado à luz das lanternas que aparentavam serem rústicas. "EU NÃO QUERO ISSO!" gritou dentro de sua própria mente, lacrimejando, mais aterrorizada pela cena do que pela morte em si.

Suas entranhas deram uma cambalhota para trás ao sentir o corpo magro bater em algo. Achou que era o fim. Mas percebeu que caíra sobre algo fofo e liso e que acabou rolando sobre ele até parar na dura e ríspida superfície de terra, chocando-se contra uma parede de pedra mui dura que machucou alguns ossos de sua coluna e obrigando-a a soltar uma exclamação de dor. Sentindo-os latejar, permitiu-se ver outra vez. Um imenso olho esquerdo vermelho com uma pupila mínima a fitava arregalado, quase encostando em seu rosto.
Ela gritou de terror e tentou ir para trás, contudo o máximo que pôde fazer foi colocar-se sentada prensando a parede e ferindo a coluna ainda mais. Tremendo violentamente notou na grande pelagem preta e lisa, nas orelhas imensas e altas que faltavam pedaços, nas patas traseiras do tamanho de quatro mesas de jantar postas com as extremidades menores unidas lado a lado, nas garras lascadas e pontiagudas com manchas vermelhas, no enorme relógio dourado de tique-taques ensurdecedores e com uma corrente dourada que estava preso no próprio pelo, no grande óculos redondos e enferrujados sobre o focinho que faltava pelos e só quando a criatura se pôs ereta de frente para a jovem, nos dentes frontais pontudos e da altura de três homens também com manchas vermelhas: era um coelho desmedido.

O coelho, que antes estava de quatro, pôs-se sobre as patas traseiras, ficando ainda maior do que já era. Samara estava tremendo violentamente e pálida de medo, o som das correntes que prendiam seus pulsos um no outro sacudindo, ecoando por toda aquela enorme sala arredondada grosseiramente cavocada debaixo de sabe-se lá quantos metros abaixo do nível do mar, seus olhos chorosos e nos quais punha descrença, não conseguindo parar de mirar os olhos daquele bicho. Por alguns tensos momentos o coelho nada vez a não ser agitar a cabeça, encarando-a de diversos pontos de tal maneira que por um instante Samara pensou que ele também estava com medo, o focinho agitado.

- Ora, ora - disse ele por fim com a voz alta, velha e inocente - Outro humano.

"O quê?" pensou ela incrédula. Ficou atônita. Será que estava inconsciente e tudo aquilo era fantasia?

- Ora, ora - fez ele outra vez. - Mas é muito magra para ser minha comida.

Os músculos dela enrijeceram de pronto, a tremedeira violenta de volta, os olhos quase saltando das órbitas.

Como quem não tivesse notado, o coelho virou a cabeça para um lado.

- Faz tempo que não como. - Ele decididamente falava consigo mesmo, em voz distante e um pouco triste. - Não como faz tempo. - e deu saltos para o mesmo lado que estava olhando, causando grandes, porém abreviados terremotos que obrigaram Samara a se manter estirada sobre o chão, indefesa.

O coelho havia ido rumo a uma prateleira, frente a qual ele parou, olhou como em busca de algo, tirou alguma coisa que fez todos os livros caírem para um lado e voltando pulando, causando as mesmas consequências de antes. Parou mais para o lado da garota, baixando a cara para alguns poucos metros acima dela e com uma cabeça de cabelos ruivos, longos e embaçados de uma mulher na pata esquerda. Mostrava-a quase como quem oferecesse, agitando o focinho enquanto falava enquanto Samara ficava verde ao mirar os olhos grandes e vazios da cabeça.

- Aqui - ele falou com a voz um tanto abafada pelos dentes imensos. - Aqui. Minha última comida. Aqui, aqui.

Samara teve que parar antes que vomitasse. Virando a cabeça para outro lado e pressionando os olhos com nojo, arriscou um comentário com voz falha:

- Então foi uma moça, é?...

- É, foi sim, foi. - o coelho negro respondeu - Uma moça, sabe?

Ele voltou para a prateleira de antes e pôs a cabeça no lugar, causando novos terremotos pelo caminho.

- Mas agora é apoio. Apoio para meus livros. Meus queridos e amados livros.

Samara ainda tremia diante da criatura colossal. Rente ao chão, via-o de costas e achava o coelho tanto curioso quanto assustador. Como aquele tique-taque de relógio.
Até então estivera preocupada demais com o coelho negro para notar que o ruído continuava, ainda que mais baixo em comparação à primeira vez que o percebeu. Ele não parava, ritmado. Tique-taque, tique-taque... Por algum motivo aquele som a perturbava mais e mais, o suor nascendo frio. Tique-taque, tique-taque... Ele pareceu ecoar alto dentro de sua cabeça, as mãos forem lentamente erguidas até as orelhas enquanto o ruído continuava. Tique-taque, tique-taque... Droga, agora que voltara a prestar atenção no som de relógio, não conseguia impedi-lo mais de dominar a sua mente. Ela tampou os ouvidos. Não estava funcionando. Tique-taque, tique-taque...

- Tique-taque. – os seus lábios finos pronunciaram sozinhos.

E o som parou. Estranhamente. Mas para seu alívio. Ela voltou a atenção para o roedor. O coelho mirava Samara por cima do ombro esquerdo com os olhos arregalados de forma assustadora. Ela subiu a coluna devagar até que estivesse novamente ereta, o olhar focado ansiosamente nos do animal, um nó na garganta. O coelho a encarava como se a tivesse pego cometendo um crime. O ar estava tenso e momentos de silêncio perduraram desconfortavelmente. Os dois pareciam terem virado estátuas, os corações pulando nos peitos.

- Apesar das correntes...

Quando o coelho negro voltou a falar, Samara se surpreendeu. A voz estava bem mais séria, não parecia avoada, tampouco inocente.

- ... ela está com você.

Samara escancarou a boca com o propósito de interrogar o coelho a respeito de quem seria “ela”, mas surpreendeu-se. Os olhos vermelhos escarlate do animal, antes crescidos e acusadores, ficaram aflitos, sobrancelhas que não conseguia ver fazendo-os cair para os lados. Então foi a vez dele de tremer. Devagarinho seus membros foram tremulando, os pelos eriçando, os ombros se erguendo, o teto soltando grãos finos de terra. Ele parecia querer falar, porém ao mesmo tempo incerto disso. Tremeu e tremeu mais.

E entrou em pânico.

Seu grito foi um guincho alto, estridente, agudo e súbito salpicando gotas vermelhas. Os globos oculares voltaram-se para cima deixando invisível suas pupilas enquanto o coelho caía de quatro na direção da menina, abrindo uma fenda que rapidamente partiu o chão ao meio que avançou sob ela e a engoliu com o grito da estudante se unindo ao do bicho até de estabacar dolorosamente cinco metros abaixo, esbarrando em uma raiz gigante no caminho.

Caindo de costas para cima, estas lhe doíam muito depois de todos aqueles baques ao ponto de vir-se obrigada a não mexer por instantes. No entanto, sentiu-se na obrigação de olhar se esforçar e olhar para cima quando sentiu os tremores dos pulos do coelho chegando perto. Para ele aquela fenda era uma frestinha de nada, então não tinha perigo. Mesmo assim, ele pareceu extremamente relutante quando, em aparência normal e de novo sobre as patas traseiras, esticou o pescoço tremulamente para vê-la.

- Você... ficará longe de mim. – foi o que ele disse.

Aquele coelho era decididamente medonho! Samara começou a se beliscar mas, assim como na coluna, a dor era real. Não havia dúvidas de que as coisas estavam indo de mal a pior ali, no entanto tinha que dar um jeito de sair daquele buraco. Caso contrário, pressentia que acabaria mofando ali mesmo!

“Certo... É uma criatura gigante que pode estourar minha cabeça se der outro grito, que pode me enterrar vivar ou me dar um pisão mortal, mas que pode me tirar daqui ao mesmo tempo. Tato, tato, muito tato agora...”

- S-Senhor coelho...

Samara ouvia sua voz muito, muito distante, porém ela tinha certeza de falar no tom habitual graças à vibração que sentia na garganta. Estava praticamente surdo e seu cérebro latejava. Continuou:

- E-Eu... – “Não, se eu falar que não farei mal a ele, aí sim ele se assusta e me mata.”

- Ninguém – ele a interrompeu – nunca ouviu o som do meu relógio exceto eu mesmo. A profecia... A profecia, ela diz que... que virá alguém abalar o nosso mundo... o País das Maravilhas... e que essa pessoa “ouviria o som do relógio mudo”. Há muitos séculos interpretei esse relógio como o meu. E então você surge do nada...Você... veio para nos matar. Para fazer uma chacina!

"Em horas de desespero, apele para a verdade!", foi a melhor que coisa em que foi capaz de pensar, a adrenalina correndo em ritmo alucinado pelas suas veias.

- Eu vim através de um livro! E eu já parei de ouvir o relógio!

Silêncio. Tensão.

Vazio.

Aquilo perdurou por um tempo interminável. Falara no desespero, era tudo ou nada e o coelho não tinha reação. Olhava para ela ainda, mas era um olhar vazio, como quem estivesse mais concentrado no que estava dentro do que fora de si. A ansiedade corria o estômago de Samara. Tinha que dar certo. Ela tinha que sair dessa!

O coelho caiu de quatro, a cabeça ainda exposta. Mais terra voando, olhos escarlates vidrados.

- De um livro, é? - questionou com voz semelhante ao do início de tudo, porém mais tensa.

Aflita e concentrada, Samara respondeu:

- É! De um livro!

- Está mentindo.

Suas próximas palavras saíram como águas de uma cachoeira.

- Não! Era um livro que pedi para a minha professora! Ele estava em cima da mesa, mas a sala estava vazia, a professora devia ter saído, então eu queria esperá-la, eu só abri o livro para passar o tempo, mas no que eu abri ele me trouxe para cá do nada, PUF! Por favor, o senhor tem que acreditar em mim, nem eu mesma sei como voltar para casa, me ajude a sair daqui!

Ele olhou para os lados, pensativo mas não menos atento. Num gesto ágil ele enfiou a grande pata dianteira esquerda na fenda, expandindo-a com o golpe, apanhando terra no meio do caminho. Droga! Ela iria morrer esmagada! Droga!

No entanto, foi naquele mesmo gesto que ele a trouxe para a superfície. Debaixo e sobre um monte de terra ela foi erguida bem na frente da cara do roedor. Para o seu terror, um pouco acima dos dentes imensos, manchados e com restos.

- Aquela mulher disse a mesma coisa... - balbuciou sonhador enquanto admirava o rosto de Samara fora de toda aquela terra sobre sua pata, a franja reta empoeirada assim como o rosto branco, os lábios amarronzados, a expressão temerosa que era refletida nas lentes redondas de seus óculos cheios de ferrugem. Com os olhos pregados nela pegou cuidadosamente em algum lugar do chão um objeto que levou com a outra pata à jovem indefesa. - Reconhece?

A palma da pata negra era cinzenta, então Samara pôde logo ver aquilo que o coelho pretendia: uma presilha preta com uma rosa. Samara gelou. Reconhecia o enfeite, mas implorava para que não fosse de quem estava pensando.

- Reconheço. - respondeu amedrontada.

- De quem é? - ele continuou.

- Parece ser de uma das minha professoras.

- E como ela é? - O coelho estava interessado.

- Ela é bem baixa, tem cabelos amarronzados-avermelhados curtos, volumosos e é alguém de idade.

- Qual o nome?

- Rosa.

Silêncio novamente.

- Então é por isso que você ouviu meu relógio... - Uma risada foi nascendo relutante. - Foi por isso, por isso! Haha!

- Ai! - gemeu com a voz alta tão perto dela.

- Ora, ora, humana, ora. - fez, chegando mais perto, solto - Não precisa gemer, não, não. Aqui, aqui - foi dizendo ao pô-la devagarinho no chão, permitindo-a finalmente a se livrar de toda aquela terra com esforço sem medo de descer pela garganta dele. Logo ele também estava lhe entregando a presilha desajeitadamente. Ele parou de se movimentar de repente como se lembrasse de algo, o sorriso morreu em seu focinho, mas ressurgiu delicadamente. - Para uma segunda pessoa vir do mundo exterior-exterior... isso não estava previsto. Pensávamos que só viria uma do exterior-exterior; do exterior vem um bom número, ao menos costumava vir, sabe, sabe?

Ainda não tinha certeza de nada naquele mundo, entretando, cambaleante, sentia-se agradecida ao coelho. Segurava firmemente a presilha com ambas as mãos fechadas cobrindo-a entre os pulsos algemados com aquela corrente escura curta. No fundo tinha dúvidas sobre professora estar mesmo lá, no que o coelho gigante chamava de "País das Maravilhas", afinal não havia sinal algum na sala de aula de qualquer tipo de agitação, contudo, ao mesmo tempo, ouvia um voz sussurrante, porém certa, dizendo que era mesmo a professora Rosa. Não tinha nada a perder mesmo e se aquele assunto ajudasse Samara a sair dali, já o suficiente.

- Mas, se ela veio para cá, senhor coelho, onde ela está?

- Com a nossa senhora Dama de Copas. Inclusive, foi ela quem a trouxe para cá.
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Rosa Ciranda
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MensagemAssunto: Re: Samara Alice.   Dom 03 Mar 2013, 08:26

Capítulo 3 - As senhoras e o motim.

Ah. Epa.

Samara nunca lera Alice no País das Maravilhas, verdade. Mas a estória era popular o suficiente para lhe dar um esboço dos principais personagens. Originalmente a Rainha de Copas não era nenhum flor do campo. Pensando nisso, Samara recebeu uma dose a mais de adrenalina no sangue pouco antes de indagar ao roedor gigante:

- E onde ela está? A minha professora, onde ela está?

- Foi escoltada pelos guardas de vossa majestade e a própria para o Castelo de Copas do Norte. - e ao mencionar a rainha o coelho demonstrou uma aflição que tentava controlar. Pensando melhor, Samara lembrava que pouco antes, quando falou da Rainha de Copas pela primeira vez, o coelho tivera a mesma reação.

- Por quê?! - a jovem deixou escapar a exclamação. O animal não era o único que estava ficando com medo. Se alguma coisa naquele mundo fazia sentido com o que conhecia, a Rainha não costumava fazer nada além de se divertir com críquete nos terrenos do próprio castelo e berrar ordens.

- Chhhhhhhiu! - o Coelho fez alto e estridentemente, as gotas de saliva voando dos lábios e ele quase partindo o chão de novo ao cair de quatro.

Seu focinho quase encostara no rosto da menina, a qual tomou um susto que a fez saltar para trás. Podia sentir os grandes bafos quentes e mal cheirosos de uma respiração nervosa. O coelho tremia outra vez. Seus olhos iam de um lado para o outro e ele sussurrava, mas ainda agredindo os ouvidos da outra. Estava muito perto, muito alto. Sua visão rodava com mais força.

- Fale baixo - balbuciou urgentemente e um tanto abafado pelos dentes grandes. - Ela... a Rainha... - Estremeceu a voz. - Ela vai me matar. Ela vai me matar se souber que estou contando tudo isso para você. Tem que ficar quieta, ouviu, ouviu?!

Infelizmente com os pulsos acorrentados ela não conseguia tampar os dois ouvidos tão bem quanto gostaria, por isso o sussurro exaltado dele conseguiu abalá-la a ponto de fazer seus joelhos tombarem contra o chão. Sentia que apagaria a qualquer momento, entretanto recusava-se friamente a isso. Era da sua professora que estava falando. Lembrava-se da última vez. Das armas em choque, do chão estralhaçado, do rosto dela ferido. Tudo para salvar a aluna. Samara tinha que entender bem tudo o que estava acontecendo, o que poderia acontecer. Qualquer coisa que viesse do Coelho parecia concreto naquele lugar sem lógica nenhuma. Por defeito ou qualidade Samara confiava rápido nas pessoas. Por ora, ele era o único em quem podia confiar.

Esforçando-se para falar, a jovem murmurou, erguendo o olhar para encará-lo, mas só vendo uma grande mancha preta.

- Ouvi, mas... por favor... fale mais baixo, senhor coelho...

- Branco.

O rosto pálido assumiu feições indagadoras.

- Desculpe?

- Meu nome é Coelho Branco. Por isso, me chame de senhor Coelho Branco, tá? Tá?

Ela não conseguiu deixar de ficar surpresa.

- O Coelho Branco?

- Sim.

Decidamente não parecia em nada com o que ela ouvira falar. Voltou ao assunto sem delongas.

- Mas por que a Rainha de Copas veio buscar a minha professora?

- Foi ela quem a trouxe para cá!

- Ai! - gemeu de dor ao sentir o ouvido tomar uma pontada, a audição muito reduzida. - Sim, mas então... por quê?

O Coelho Branco se demorou um pouco, as garras gradativamente fincando na terra e gotas de suor nascendo e escorrendo sobre os pelos cor de breu.

- Ela... estava furiosa. Todos estão. Eu estou. Mas ela quis fazer isso, quis isso. E ela vai fazer o que quiser com aquela mulher. Qualquer coisa.

Foi a vez de Samara de suar frio.

- Ela pode maltratá-la?!

- Ela pode maltratar a qualquer um! Por que acha que sinto tanto medo? Eu tinha uma família aqui. Mas eu cheguei atrasado uma vez, uma vez e... – Ele deu uma pausa, na qual lágrimas grossas e redondas começaram a brotar de seus olhos vermelhos, escorrendo rápido e estalando no chão com um som úmido forte. Parecia que Samara recebia jatos irregulares de uma mangueira. - ... e ela matou minha família todinha e a deixou por aí, sabe... sabe?

Agora ela estava com medo e pena. Mesma com a aparência grotesca e as atitudes até pouco assustadoras, sentiu-se triste pelo Coelho Branco. Se ele fosse fiel aos coelhos que ele conhecia, devia ter muitos filhotes. Uma pergunta a turbava, porém, fazendo-a questionar com o máximo de tato que pode:

- Essa... Dama, ela... é de que tamanho, senhor Coelho Branco?

Samara queria ter uma ideia mais exata do que iria enfrentar. Nas estórias e afins, era comum achar pessoas e animais muito grandes ou muito pequenos, mas ela sentia que tudo ali era diferente. Quanto antes soubesse, mais seu psicológico estaria preparado para enfrentar o que estivesse do lado de fora da toca do coelho – para onde esperava ir logo. Com os dentes cerrados de nervosismo e torcendo para não honrar os chefes de Shadows of Colossus ou Final Fantasy, esperou a resposta sem mais.

- Ela é um pouco maior que você.

Mas como?! Aquilo só poderia ser brincadeira! O Coelho Branco era imenso! Poderia esmagar a tal rainha com um pulo, mas ao invés disso a temia mais do que qualquer coisa. E como ela conseguia matar coelhos gigantes? A princípio Samara viu o coelho como um covarde, mas no fim de seu raciocínio viu-se especulando seriamente sobre o poderio da Rainha de Copas. Parecia, afinal, uma pessoa que não era para brincadeiras.

O Coelho interrompeu seus pensamentos.

- Mas você a trará aqui, não é?

Incerta, Samara retorquiu:

- Quem?

- A sua professora.

Sua mente ficou ainda mais confusa. Não estava entendendo bem a linha de raciocínio do coelho.

- Ah, claro, mas... para quê, senhor Coelho Branco?



- Para ser minha comida, claro, claro.

Naquela hora suas entranhas pareceram terem congelado e depois explodido em mil pedaços. Sentiu cada um de seus músculos ficarem relaxados por momento e logo depois duros como nunca. Seus olhos gradativamente foram arregalando até quase saltarem das órbitas de horror. Seus lábios começaram a tremer, subitamente pálidos. É claro... Na pressa não havia se perguntado a respeito da gentileza do Coelho. Por isso ele a estava contando tudo aquilo. Por isso a tinha liberado. Ele estava com fome. E queria ajuda para lidar com ela. Aparentemente sem notar a mudança que ocorria na jovem, o Coelho prosseguiu como se fosse a coisa mais normal do mundo:

- Faz muito tempo que eu não como, lembra? Eu contei, lembra, lembra? E sua professora parecia bem suculenta. Uma porção pequena, é, é sim, mas eu não como há muito tempo. Ela tem carne ao contrário de você, sim, sim. Mas eu não posso ir até o castelo e capturá-la. Mas você pode. Sim, sim, você pode. Você é muito menor do que eu, é só fazer o que eu pedir. Sim, sim, e acalmarei a minha fome. Certamente acalmarei. - e lambeu os beiços num gesto que exaltou o desespero da morena.

Ele não era gentil. Nunca havia sido!

- Não! - berrou cheia de terror. - Não! - ela recuava às pressas, meio cambaleante, em choque, abatida. - Eu não farei isso! Você não pode... Não!

Desgraçadamente as lembranças da professora Rosa rindo ou demonstrando interesse por ela com um simples "Tudo bem?" ou conversas mais extensas lhe assaltou a mente, piorando sua aflição.

- Eu não farei isso para você! Nunca! Eu a amo! Eu quero salvá-la! Eu não posso fazer isso!

O Coelho Branco estava sorrindo. Mas os cantos de seus lábios foram caindo e seus olhos vermelhos escarlate se arregalaram perigosamente, olhando vidrados para ela sem qualquer outra reação. Durante o silêncio tenso Samara tentou buscar por uma saída, mas praticamente não o fez por não ter coragem de virar a cabeça por mais de meio segundo. Calado, de alguma forma o Coelho a ameaçava. O silêncio continuava com tensão. A única coisa que tinha certeza até aquela hora era que, se houvesse mesmo uma saída que não fosse por cima, estava em algum lugar atrás dela. Tinha que ir logo. Mas não podia virar de costas para o colosso. Por alguma razão não podia! Algo dizia que não podia!

Os olhos vermelhos e arredondados atrás dos óculos sujos começaram a se torcer, assim como todo o seu rosto em uma feia careta. Um rosnado foi nascendo baixinho até alcançar níveis absurdos enquanto seu corpo erguia-se devagar, carregando nas patas grandes quantidades de terra que havia pego ao fechar os punhos trêmulos.

Mais alterado do que antes, bem mais, o Coelho berrou outra vez. Tão alto, mas tão alto que pedaços de terra começaram a desprender do teto em grande escala, terrra levantando para todo o lado, Samara, quase sem consciência, vendo-se obrigada a se atirar de um lado para o outro urgentemente. A pata esquerda do Coelho começou a se arrastar como faz um touro, o olhar louco fixo nela. Era hora de correr para a saída. Onde quer que ela estivesse, era hora de correr. Correr muito!
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Samara Alice.
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